meu amigo e companheiro de redação Dans Souza me pediu recentemente para escrever um pequeno testículo (pleonasmo malicioso, esse) sobre o hiato da Crase, coisa que já havia passado pela minha cabeça mas ainda não tinha sido feita, embora isso seja o mínimo que vocês leitores merecem após anos de carinho – e ódio de alguns. Contudo é impossível falar da Crase de uma forma fria e impessoal, pelo menos da minha parte, então gostaria de convidá-los a entender um pouco mais sobre o significado da revista, que por sinal já me perguntaram diversas vezes, mas meu forte nunca foi vocalizar, então que esta seja uma resposta, além de confissão, carta de amor e verborragia. Não posso falar por todos que já passaram por aqui, pois felizmente tivemos uma pletora de colaboradores que abraçaram a causa, mas posso falar de mim. A Crase literalmente me tirou das sombras, de uma vida de ócio e frustração, especialmente por não saber o que fazer dela. Para quem não sabe, escrevi meu primeiro texto com o lançamento da primeira edição – aquela sobre o meu ídolo, o George Carlin – e descobri um dom latente, que talvez continuasse assim pro resto da vida caso minha resposta ao convite do Dans para criar um veículo tivesse sido “não”. A Crase, portanto, significa mais do que apenas uma revista ou um projeto bem feito, é a ela que devo minha realização atual, o descobrimento do que fui posto no mundo para fazer e, em consequência, a todas as pessoas que já abriram a página inicial, independentemente dos motivos – até vocês, amigos, que apertavam F5 de cinco em cinco minutos achando que nos ajudariam – e por isso eu agradeço, não pelo sucesso da revista, mas por terem sido parte da engrenagem que mudou a minha vida. Perdi a conta de quantas noites passamos em claro, especialmente nos dias três, quatro e cinco de cada mês. Veja bem, nós (Dans e eu) sempre montávamos a revista inteira dois dias antes do dia do lançamento por motivos de força maior; acabemos com o mistério, fomos um exército de dois homens por bastante tempo antes de encontrarmos figuras realmente interessadas em ajudar – como Bruno Buhr, Cadu Senra, Gui Liaga entre outros -. E essa foi a única ajuda que tivemos, fora o apoio moral de pais, amigos, cachorro, papagaio, periquito e etc. Lidamos com a falta de incentivo durante os três anos de produção e tudo o que fizemos foi à base do bom e velho escambo e de nossos próprios bolsos, que nunca foram nada além de rasos. Foi quando descobri, frustrado no meio de toda aquela felicidade, que arte e dureza muitas vezes andam lado a lado.

Nossa luta, contudo, é por muito mais do que um trocado no bolso. Vivemos em dias turbulentos, essa espécie de labirinto sócio-politico-cultural em que o país se encontra. Foi da busca por uma saída, a mesma busca de toda uma geração, que a Crase nasceu e, se me permitem dizer, se fez – e ainda faz por outros meios – importante por propor da forma mais crua e direta possível o diálogo crítico, em contraste com o oceano de ideias cristalizadas promovidas por um jornalismo moribundo e falta de sensibilidade. Sinto um orgulho sem precedentes do que construímos juntos, de termos criado com louvor, aos trancos e barrancos, o que no começo parecia impossível. “Nada é impossível de mudar”, já dizia Bertolt Brecht.

Não me despeço, pois é o intuito de todos nós voltarmos com ainda mais força, experiência e, se possível, o incentivo necessário para não mais esmurrar pontas de facas. Dou um “até logo” com o coração apertado de quem ainda sonha com os lançamentos das edições e as memórias da experiência que foi de longe a mais marcante, engrandecedora e deliciosa da minha vida, de verdade. Fui completamente contra o que era esperado de mim, me pus a andar na direção oposta a que vinha caminhando a vida toda e só assim eu me encontrei. Em retrocesso, nunca imaginei o quão apropriado isso seria. Parafraseando meu marido-nos-negócios: a Crase realmente é pra quem pensa ao contrário.

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